Finalmente me libertei!
Depois de muita luta, muita dor de cabeça (nos dois sentidos), problemas de saúde, psicológicos e de auto-estima, deixei de ser usuário! Minha história é idêntica a de milhares de pessoas que penam nessa vida.
Poucos conseguem sair.
A maioria é extremamente dependente, assim como eu fui.
No fim de minha infância e começo da adolescência eu morava no interior.
Lá as coisas são diferentes. Lá eu não tive esse problema, pelo menos dependência, não.
Quando voltei a São Paulo, aos 16 anos, custei um pouco a conseguir emprego. Isso fez com que eu usasse pelas primeiras vezes. Mas, pela falta de dinheiro e ausência da sensação de dependência, não usava sempre. Porém, foi só conseguir alguns bicos que o problema começou...
Estranhei um pouco no começo, afinal era uma viagem nova.
Para quem estava numa tremenda monotonia isso até era visto com bons olhos. Era legal! Eu conhecia coisas novas, pessoas novas, novos ambientes.
Sensação de liberdade e, contraditoriamente, independência!
Mas com o passar do tempo você nota que as pessoas novas são sempre as mesmas... E que elas não são felizes ali, mas, simplesmente, não tem escolha.
Comecei com pequenas viagens, mas, sabe como é...
Você quer mais! Quer ir mais longe!
Em pouco tempo aquilo passou a consumir boa parte do meu tempo e do meu dinheiro. Eu comecei a ter as primeiras crises, mas não tinha jeito. Meu corpo já estava entregue.
Eu já fazia parte daquela multidão de rostos abatidos.
Minha família nada podia fazer pra me ajudar.
Todos eles também usaram durante muito tempo.
Não consigo imaginar como eles se livraram.
Um deles até chegou a trabalhar com isso, mas não agüentou a pressão e deixou.
Aos 18 anos trabalhei como Office-boy. Nesse período entrei de cara em tudo! Usava absoutamente de tudo! Onde quer que eu fosse eu usava!
Não demorou muito para começarem os problemas de saúde...
Problemas respiratórios, dores de cabeça insuportáveis, cansaço, fraqueza, náuseas.
Próximo de completar 20 anos eu consegui me afastar desta indigna vida. Fui morar fora da Capital e consegui me abster por um bom tempo.
Tempos depois eu me casei. Fui morar em Itaquera, onde voltei a usar e a situação chegou a sua pior fase. Agora eu usava todo santo dia. Se tornou insuportável. Era irreversível!
Cenas tristes! Constantemente algum usuário passava mal. Desmaios, enjôos, pressão...
Outros, também debilitados, tentavam ajudar, mesmo estando na mesma viagem.
Por vezes apareciam “do nada” alguns homens fardados.
Eles xingavam, gritavam, chutavam, batiam...
Mas bastava que eles virassem as costas e todo mundo voltava a apertar.
As sensações eram diversas...
Calor insuportável e falta de ar eram constantes.
As brigas, frequentes. Muitas vezes por questões fúteis.
Aquilo tira a você da razão.
Só quem já esteve nessa vida faz idéia do que estou falando.
É algo que não desejo a ninguém.
Jovens, com futuros promissores, se amontoando por causa de uma viagem!
Meus amigos diziam:
“Saí dessa vida!” Isso não é pra gente não!”, “Se esforça, cara!”.
Mas eu não sabia o que fazer. O fato é que eu lutei! Lutei muito!
Minha mulher foi extremamente importante.
Com a sua ajuda e muito esforço eu me livrei.
Juntos nós compramos um automóvel!!
E hoje, graças a Deus...
EU NÃO SOU MAIS USUÁRIO
DO TRANSPORTE PÚBLICO DE SÃO PAULO.
Lê Poveda Ex-usuário dos trens da CPTM - Expresso Leste/Calmon Viana Ex-usuário dos ônibus da SPTRANS
Ex-usuário do Metrô - Linhas Vermelha, Azul e Verde.
Alex, seu irmão, foi cobrador de ônibus - Linha Vila Matilde > Ermelino Matarazzo
Fardado
Vista da Estação Brás